quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Mãos

olho as minhas mãos abertas
mãos que esperam e desesperam pela tua mão
ergo o olhar para o azul e lá me encontro
perdido num infinito mar de esperança

procuro-te qual vagabundo sem rumo
por entre as densas nuvens do desejo
voando por esse céu que me limita
mas não te alcanço

queria beber no teu corpo de água
toda a primavera que adiei
saborear a tua frescura
e renascer dentro dos teus olhos

queria ser o que sempre fui e não viste
e abrir as minhas mãos vazias
onde cabe todo o mundo que és tu
CN 2003

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

E tu partiste

Lá,

no mar atrás das dunas,
há gaivotas que rodopiam e esvoaçam,
enebriadas pela maresia

Aqui,
na areia ainda quente,
há o adeus do Sol
e os reflexos roxos do seu último abraço

Ali,
onde as árvores dançam,
há a união do chilrear dos pássaros
e do murmúrio do vento

Em mim, percorrida por ti,
há a guerra da paixão

Cabelos negros,
olhos castanhos ou negros também.
A pedra fria sobre o meu tédio.
Os teus gestos, o teu rir, o teu olhar,
as palavras que significavam tanto

Tinhas de partir também
ou até a ti tocou o absurdo?

1972

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Adeus amigo

Hoje morreu o meu amigo Arménio Lança. Foi durante a madrugada numa dessas estradas assassinas do nosso país. Conhecíamo-nos desde sempre, os nossos pais são amigos, estudámos juntos e ele como mais velho foi meu conselheiro, irmão protector e sobretudo amigo.

É pá, sinto mesmo a tua falta, ainda que muitas vezes só nos víssemos naqueles jantares anuais, sempre em 23 de Dezembro, com a malta toda. E agora? Há uma cadeira que vai ficar vazia para sempre.

Não quero falar do galinheiro, daquele tempo inesquecível, não quero falar da música que ouvíamos na minha casa naquele gira discos das Selecções do Reader's Digest, dos longos serões a contar anedotas, nem das matinés que organizávamos com as raparigas da nossa idade.

Tinha tanto para escrever mas não consigo porque estou emocionado e porque dói. Não te vou dizer até já, porque sei que nunca mais voltarás, dir-te-ei antes que jamais esquecerei todos aqueles momentos que nos fizeram felizes.

Adeus Méninho, agora é mesmo para sempre.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

“A característica verdadeiramente revolucionária do conhecimento é que pode ser aprendido também pelos fracos e pelos pobres. O conhecimento é a fonte de poder mais democrática, o que o torna uma ameaça contínua para os poderosos”
ALVIN TOFFLER

Santo Ofício

Tu lhes dirás, meu amor, que nós não existimos.
Que nascemos da noite, das árvores, das nuvens.
Que viemos, amámos, pecámos e partimos
Como a água das chuvas.

Tu lhes dirás, meu amor, que ambos nos sorrimos
Do que dizem e pensam
E que a nossa aventura,
É no vento que passa que a ouvimos,
É no nosso silêncio que perdura

Tu lhes dirás, meu amor, que nós não falaremos
E que enterrámos vivo o fogo que nos queima,

Tu lhes dirás, meu amor, se fôr preciso,
Que nos espreguiçaremos na fogueira

José Carlos Ary dos Santos
A liturgia do Sangue (1963)

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Filmes a não perder

Não há dúvida que os anos 40 e 50, foram os anos de ouro do cinema de actor, durante os quais a qualidade da representação se sobrepôs às outras disciplinas do cinema.
Rita Hayworth foi um mito de hollywood e Glenn Ford considerado um actor de poucos recursos. No entanto, GILDA é uma obra-prima que qualquer amante de cinema não pode deixar de ver. Realizado por Charles Vidor, foi um filme avançado para a época (1946), cheio de sensualidade e até erotismo. Rita Hayworth e Glenn Ford tiveram aqui o seu momento de glória para puro prazer de quem gosta de cinema. É um clássico indispensável.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Foste para além do mar, num barco que não vi partir.
Sinto o gelo da tua ausência na minha carne e a falta do teu abraço.
Dói-me a solidão e o meu pensamento voa à tua procura
por esta imensidão de areia, céu e mar.

Preciso encontrar-te, meu amor, porque estou perdida.
Dá-me a tua mão e leva-me para lá das ondas deste mar onde me afogo
C.N. Jun/2010

domingo, 27 de junho de 2010

Encontro

A jovem cruzou, olharam-se, ele seguiu-a e disse-lhe qualquer coisa. Pouco depois vejo-os juntos dentro de um daqueles carros eléctricos, que andam por todos os lados. Ela cora e ele sorri. Qualquer deles tem pouco mais de 18 anos.
Venho-me embora. Não quero presenciar os carros pararem e escutar uma voz metálica dizendo:
- Esta corrida terminou. Rápido! Rápido! Outra corrida.

É que o sonho de dois jovens nunca devia terminar!

1971

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Morreu José Saramago

Hoje dia 18 de Junho de 2010 morreu o homem mas a obra é imortal.
Obrigado Saramago!

POEMA À BOCA FECHADA

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

(José Saramago In OS POEMAS POSSÍVEIS, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1981. (3ª edição):

Filmes a não perder

Aconselho a verem o filme The Last Station (2009) de Michael Hoffman (O Clube do Imperador), que conta com interpretações brilhantes de Christopher Plummer, Helen Mirren e Paul Giamatti, tendo os 2 primeiros sido nomeados, quer para os Óscares, quer para os Globos de Ouro.
Relata os últimos anos da vida do escritor russo Leon Tolstoy, homem de convicções, cuja ideologia política se incompatibilizou com o amor que sempre dedicou à sua Condessa Sofia, com quem foi casado durante 48 anos.

domingo, 13 de junho de 2010

Maneira de bem sonhar

Vive a tua vida. Não sejas vivido por ela. Na verdade e no erro, no gozo e no mal-estar, sê o teu próprio ser. Só poderás fazer isso sonhando, porque a tua vida real, a tua vida humana é aquela que não é tua, mas dos outros. Assim, substituirás o sonho à vida e cuidarás apenas em que sonhes com perfeição. Em todos os teus actos da vida real, desde o de nascer até ao de morrer, tu não ages: és agido; tu não vives: és vivido apenas.
Torna-te, para os outros, uma esfinge absurda. Fecha-te, mas sem bater com a porta, na tua torre de marfim. E a tua torre de marfim és tu próprio.
E se alguém te disser que isto é falso e absurdo, não o acredites. Mas não acredites também no que te digo, porque se não deve acreditar em nada.
F.Pessoa
O Livro do Desassossego

Lívia Rév Chopin Nocturne in E flat major Op 9 No 2

NO MEU TEMPO

No meu tempo, o casamento era fruto do amor entre duas pessoas de sexos diferentes. Agora deixou de ser. Acabo de saber que o amor não existe apenas entre um homem e uma mulher. Esta geração descobriu que o conceito de amor é muito mais lato. Existe também entre dois homens ou entre duas mulheres. Então toca de arranjar meios legais, apadrinhados pelo nosso presidente, para que um homem possa casar com outro homem e uma mulher possa casar com outra mulher.

Na natureza as fêmeas acasalam com os machos, salvo nos casos de hermafroditismo. Agora provou-se que a natureza nem sempre tem razão.

Mas esta geração impõe um limite: embora considere o amor como um conceito muito mais abrangente que a geração anterior, só pode acontecer entre seres humanos. Quem pense que pode casar com o cão ou com o gato (ou com o burro), tire daí a ideia. Ainda que goste mais do animal do que de qualquer ser humano.

Como o Estado constitucionalmente se considera ateu, há que contemplar também na lei o casamento polígamo, já que, "Na sua origem, o ser humano é polígamo", conforme confirma a famosa sexóloga Erika Morbeck, bem como o casamento grupal. O respeito pela liberdade de pensamento impõe, igualmente, a sua legalização.

No meu tempo, os rapazes apaixonavam-se pelas raparigas e sonhavam com o dia em que se uniam pelo matrimónio. Era o dia mais feliz das suas vidas. Concretizavam, assim, o sonho de uma vida e nascia o fruto do amor que dedicavam um ao outro: os filhos.

No meu tempo …

Ai que saudades desse tempo!

C.Nobre [8/JUN/2010]

O FUTURO DO PENSAMENTO ECONÓMICO

Todos os diagnósticos económicos actuais encontram-se padronizados pelo pensamento económico neoclássico. Existe claramente uma tendência para uniformizar o pensamento económico, tornando-o desinteressante, o que pode colocar em causa a existência da Economia como disciplina autónoma, substituindo-a por outros ramos da ciência.

São notórios os avanços nas ciências do conhecimento humano e assustadores os avanços tecnológicos, alterando os comportamentos sociais, enquanto que as teorias económicas passaram mais ao domínio da literatura do que à ciência.

A necessidade de interligar a economia com outras áreas tem vindo a ser incentivada na atribuição de alguns prémios Nobel, nomeadamente, em 1991 a Ronald Coase, cujo trabalho se situou entre a Economia e o Direito, em 1992 a Gary Becker, premiando o desenvolvimento no campo da análise dos mais variados aspectos do comportamento humano, em 1993 a Robert Fogel, no campo da História Económica e principalmente em 1988 ao ser laureado o indiano Amartya Sen, pelas suas contribuições para a economia do bem estar (1), situando o prémio no limite entre a Economia e a Filosofia.

A análise empírica, o desenvolvimento da economia experimental e a aliança com outras ciências sociais, trarão certamente novos contributos para o bem estar dos povos, descapitalizando o que é humano e humanizando o capital. Ou não fosse esse o objectivo da economia: a satisfação das necessidades humanas através da distribuição equilibrada dos bens produzidos, tendo em conta a realidade dos povos e das suas culturas.

C.Nobre (2000)

(1) Para medir o desenvolvimento de uma economia é imperioso levar em conta, para além dos indicadores tradicionais, o Índice de Desenvolvimento Humano e o Índice de Pobreza Humana.